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Memórias – Londres, 27 anos depois

21 julho 2012

Meu primeiro endereço londrino

Esta minha última ida a Londres me fez sentir um pouco nostálgico e, aproveitando o domingo de folga, resolvi fazer o meu “Caminho de Santiago”, voltando a lugares que fizeram parte da minha estória com a cidade.

Estive em Londres pela primeira vez em março de 1985, nas minhas primeiras férias do trabalho. Uma grande amiga havia ido no ano anterior e alugado um quarto em uma casa de família.

Como estava querendo fazer o mesmo e economizar na hospedagem (a diária do quarto saía por 5 libras e, naquela época, a libra estava quase equiparada ao dólar americano, bons tempos!!!) escrevi uma carta ao Mr. Lambert (não havia e-mail em 1985, lembra-se?). Um mês depois veio a resposta positiva: poderia ficar com o quarto pelos 30 dias requisitados – 150 libras no total!

Comprei minha passagem pela LAP (Lineas Aereas Paraguayas) que fez a seguinte rota: Rio-SP-Asunción-troca de avião-Recife-Madrid-Bruxelas. Umas 20 horas de voo, quase tirei brevê…

Cheguei pela manhã em Bruxelas, passeei pela Grand Place, mas não conseguia conter a ansiedade para começar a viagem a Londres, o que só ocorreria à noite, no trem das 22hs que me deixaria em Ostende para tomar o ferry até a tão amada ilha.

Pois bem, primeira vez na Europa e lá estava eu na plataforma indicada pelos avisos, esperando pelo trem, que chegou pontualmente. Primeiro mundo total!!!

Subi no vagão, mas não me certifiquei se realmente estava em um da segunda classe, de acordo com a passagem que havia comprado. Resolvi perguntar e, diante da resposta negativa, desci do trem para procurar o tal vagão da segunda classe. Eis que, ato contínuo à minha descida, o trem parte, na mais absoluta frieza, me deixando boquiaberto e com a mala na mão no meio da plataforma.

Corri para a bilheteria, esbaforido e com meu francês sofrível, tentando explicar o que havia acontecido. A atendente, calmamente, me informou que haveria um outro trem dali a poucos minutos, que ainda permitiria que eu não perdesse o meu ferry. Ufa!!!

Depois desta trapalhada, da travessia do Canal e de outro trecho de trem, agora já na parte britânica, cheguei à Victoria Station na manhã de um sábado, quase 48 horas depois da saída do Brasil, mas inebriado de estar finalmente na cidade que tanto admirava, mesmo à distância.

Tudo parecia bonito: o ar do final do inverno, o trânsito ordenado, pessoas elegantemente vestidas, o sotaque sensacional, o cheiro de comida indiana, todos os meus sentidos eram testados. Nem dei bola para os bêbados de plantão que costumam povoar as imediações das estações de trem…

Como meu planejamento tinha sido minucioso, já fui direto comprar meu Travelcard de um mês (que dava direito a andar de metrô e ônibus pelas zonas 1 e 2) e tomei o metrô até a estação de Westbourne Park, naquela época ainda na Metropolitan Line (hoje este trecho está na Hammersmith and City Line). Andei alguns metros e, voilá: estava em frente à casa do famoso Mr. Lambert, um irlandês que trabalhava na British Telecom, na bucólica Leamington Road Villas, 7.

Visão da casa 7, em Leamington Road Villas

Porta principal da casa

Toquei a campainha e fui atendido por seu filho de 15 anos, um skinhead em formação que possuía um cachorro chamado Adolf  Rotten Vicious Mussolini, vejam só…

Ele me informou que seu pai estava no trabalho, mas que sabia quem eu era e que chegaria naquele dia. Deixei as malas por lá e decidi partir para a venerada Virgin Megastore, no final da Oxford Street, tomando um ônibus da linha 7.

Deixa eu contextualizar um pouco minha adoração por Londres senão voces vão boiar: eu sempre gostei muito de música, principalmente o rock independente britânico, que estava despontando naquela época. Morava no Rio, mas o acesso a este tipo de som se dava pelo rádio (Fluminense FM) ou então aguardando as poucas cópias de discos importados que chegavam na finada Modern Sound, loja que ficava na Barata Ribeiro, em Copacabana. Lá eu gastava toda minha mesada economizada, necessária para pagar os preços extorsivos cobrados por eles.

Isto sem falar nos shows das bandas, que simplesmente só faziam uma concessão à Austrália quando programavam seus shows no hemisfério sul. Juntando a isso meu gosto pela língua inglesa, o fato de estar num país onde a educação e o respeito às pessoas reinavam (confesso que fiquei chocado quando fiz menção de pensar em atravessar a rua e imediatamente um carro parou para que eu o fizesse – me senti obrigado a fazê-lo, mesmo que, na verdade, estivesse apenas tentando me orientar pelas redondezas), só podia mesmo ficar apaixonado por Londres, mesmo antes de conhecê-la.

Linha 7 – normalmente ligando Acton a Russell Square – minha preferida na cidade.

Local de peregrinação dos amantes da música – hoje extinta!

Voltando a meu bairro, suas ruas eram bem tranquilas, com poucas lojas e até uma igreja anglicana. Nem sabia disto, mas descobri que, na Talbot Road havia uma filial da loja de discos cult Rough Trade, que além disto, era uma das gravadoras ícone do rock independente (mais conhecido por sua abreviação: indie) britânico. A loja continua do mesmo jeito até hoje, embora a sua filial de Brick Lane seja mais “bombada”, até porque a cidade agora está acontecendo por aqueles lados.

All Saints Notting Hill

Outro “templo da perdição”

A coisa mudava um pouco de figura quando chegávamos em Portobello Road, centro nevrálgico do comércio local e que ficava completamente lotada aos sábados, dia de sua famosa feira de antiguidades.

A famosa rua

O cartaz da feira de sábado em Portobello Market

Portobello Road

As fotos abaixo mostram uma rua meio deserta (era domingo). Percorri toda a extensão da feira, passando pelas lojas “descoladas” do local, seus prédios coloridos e os jardins bem cuidados das casas.

Prédios coloridos

Comércio local

Detalhes do jardim de uma casa  em Portobello Road

A rua termina em Pembridge Road, que, por sua vez, desemboca em Notting Hill Gate, mais um local de inúmeras peregrinações minhas. Era lá que ficava uma das filiais da Record and Tape Exchange (hoje, o nome, mais atual, é Music and Video Exchange) que vende LPs, CDs e DVDs usados, às vezes a preço de banana.

Claro que, para encontrar as barganhas era necessário sujar bastante os dedos, procurando poucos tesouros entre várias porcarias. A alegria de achar aquele exemplar baratinho do CD que você tanto procurava não tem preço…

Depois de me satisfazer sonicamente, era preciso alimentar o estômago. Vez por outra parava no restaurante italiano ali ao lado para um prato de spaghetti carbonara (na verdade conheci este restaurante pela primeira vez na sua filial de Dean Street, mais próximo à Megastore; hoje tanto a loja quanto o restaurante estão extintos, snif!).

Claro que já comi carbonaras melhores, mas na época, não havia preço menor do que o deles. Hoje, com o nome modificado para De Amicis, a qualidade piorou um pouco, como pude atestar. Valeu pela nostalgia apenas…

Uma das filiais da Record and Tape Exchange

Restaurante italiano em Notting Hill Gate

E a Oxford Street, outrora tão atraente, hoje não passa de um amontoado de lojas de roupas e souvenires baratos onde apenas a HMV ainda resiste, pateticamente tentando sobreviver com alguma classe em meio aos vizinhos sem identidade, vendendo livros e DVDs, além de CDs, óbvio.

Nem por isso Londres perdeu o seu charme, claro. E hoje em dia nem é preciso economizar para ter o último lançamento daquela banda de Oxford que chacoalhou o mercado com o chamado math rock: a independência sonora nunca foi tão democrática e acessível nos tempos do mp3!!

Mas que me dá uma saudade daqueles tempos onde tudo era mais difícil e, por isso, mais gostoso comemorar cada vitória, ah, isso dá…

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7 Comentários leave one →
  1. Mari Campos permalink
    21 julho 2012 4:04 pm

    Eu sempre digo, JB: conhecer um lugar pela primeira vez é extasiante e maravilhoso; mas revisitar um local, sobretudo se for um lugar que amamos, é mil vezes melhor 😉 Gracinha de post. We all ❤ London.

    • 21 julho 2012 9:34 pm

      Pois é, como bem disse o Samuel Johnson, acho que nunca vamos nos cansar de Londres, né Mari?

  2. 21 julho 2012 4:47 pm

    Eu ganho na categoria maior susto ou memória mais engraçada de viagens por Londres?

    • 21 julho 2012 9:33 pm

      Haha, deve estar no top 5, Guto. Acho que vou ter que fazer um post sobre isso…

  3. 21 julho 2012 11:54 pm

    Djilícia de post, JB. Saudades de ti! 🙂

  4. 22 setembro 2012 2:51 pm

    Gracinha de post, JB. Eu tenho uma ligação para sempre com Londres, desde a Cultura Inglesa.

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